Profissionais de saúde não sabem discutir ciência

Há algumas semanas fiz uma enquete na minha página de Instagram, pedindo para meus seguidores mandarem dúvidas sobre tratamentos da dor lombar (minha área de atuação na Fisioterapia). Como a maioria dos meus seguidores são Fisioterapeutas ou Profissionais de Educação Física, as perguntas têm um cunho um pouco mais específico e normalmente mais científico.

Uma dessas perguntas era sobre o método de Reeducação Postural Global (RPG), extremamente utilizado para o tratamento de distúrbios posturais e da dor, principalmente em relação à coluna. O profissional me perguntava se existiam evidências científicas que o RPG ajudasse na dor lombar. Sabemos que até o momento não existem evidências de boa qualidade que o RPG seja eficaz para dor na coluna. Em outras palavras, significa que ao utilizar o RPG como escolha de tratamento, o Fisioterapeuta está usando um tratamento que não tem eficácia científica comprovada, já que os estudos não são de boa qualidade, e pode estar utilizando um tratamento placebo.

Mas não foi nada disso que eu respondi. Respondi apenas: não existem evidências de boa qualidade do uso do RPG para a dor lombar. Passaram algumas horas e o profissional que me fez a pergunta agradeceu pela resposta. Mas recebi outra resposta de uma colega de profissão pela mensagem direta do instagram que me deixou intrigado:

“Você é ridículo! Não entende nada de RPG e fica falando essas asneiras!”. 

Pelo tom da mensagem percebe-se que a Fisioterapeuta levou minha resposta pro pessoal, ou seja, reagiu de forma passivo agressiva.

Realmente eu não tenho formação em RPG e meu conhecimento no método baseia-se em algumas sessões que realizei como paciente e na leitura de um livro de seu autor. Mas não é necessário entender nem conhecer o método para verificar se as evidências científicas confirmam sua eficácia ou não. Saber ler ciência, ou seja, fazer uma busca básica sobre as evidências deveria ser o suficiente. E isso vale para qualquer método.

Mas não é assim que funciona na prática. Profissionais de saúde – que não entendem essa questão tão básica da ciência – se ofendem quando são apresentadas evidências que seu método favorito não funciona. É como se você apontasse os dedos na cara do profissional e falasse o seguinte: “Seu trabalho é um lixo e você é um profissional medíocre.”

Mas não é isso que a ciência faz. Ela simplesmente mostra estatisticamente que uma hipótese é mais plausível que outra, de forma totalmente neutra e impessoal. O exemplo do que aconteceu comigo infelizmente não é um fato isolado. É muito comum a discussão entre profissionais de saúde devido a discórdias entre métodos com pouca evidência científica.

A “verdade” é que é muito difícil discutir ciência com profissionais de saúde, pois existe uma arrogância que impede o profissional de assumir que está errado, já que ele é “autoridade” no assunto. Também “dói” assumir que seu método favorito de tratamento é baseado em estudos de ciência básica, que não podem ser utilizados como prova de sua eficácia e que provavelmente seu investimento (tempo-raciocínio-dinheiro) no método não está ajudando os seus pacientes tanto quanto ele acredita.

Não se engane, meu caro leitor, ao achar que seu interlocutor sempre foi imune a tudo que escreve. Se minhas palavras soam com firmeza é por que já cometi todos esses erros. Já defendi métodos com unhas e dentes e usei de todos os artifícios para provar a meu paciente e a meus colegas de profissão que meu método de tratamento era o melhor. Pelo contrário, eu achava que a ciência iria fechar meu raciocínio, acreditava que cientistas eram mesquinhos, pouco abertos a críticas e que sempre acreditavam em uma só verdade. 

Bom, eu estava errado. 

O raciocínio científico trás junto com seu entendimento uma postura neutra, baseada principalmente na capacidade de errar e mudar de opinião. Hoje, uma das coisas que mais me deixam feliz ao discutir ciência é poder assumir que posso estar errado.

Obviamente que em um primeiro momento também é difícil escutar que minhas ideias ou hipóteses possam estar erradas. Afinal, eu não tenho sangue de barata.

Mas no segundo momento, após a poeira baixar, lembro-me que por mais plausível que minha hipótese seja, ela não faz as evidências se adaptarem à minha vontade. A ciência confirma ou refuta aquela hipótese de acordo com as evidências existentes. E se as novas evidências forem fortes o suficientes para mudar minha hipótese (e minha crença), fico feliz em assumir meu erro.

Que fique claro, ninguém é obrigado a aceitar o método científico. Existem outras maneiras de se encontrar a resposta para suas dúvidas. Mas no ponto de vista de Carl Sagan – tentando ser imparcial em meu viés de admirador do assunto – o raciocínio científico é o que faz isso de forma mais neutra (1).

Acho desnecessária, apenas, a postura passivo agressiva de profissionais de saúde que não possuem argumentos para dialogar ciência. A discussão saudável costuma virar uma agressão pessoal quando o profissional de saúde percebe que as evidências científicas superam suas crenças pessoais de tratamento, ou seja, sua verdade absoluta parece estar em risco.

Tenho 95% de certeza que esse tipo de atitude acontece pela falta de treinamento em ciência nas graduações em saúde.

Aliás, o que é muito estranho, já que as graduações em saúde nas universidades do Brasil têm a ciência como base de sua formação. Seus currículos são formados por disciplinas científicas, os professores precisam ter mestrado (um indicativo que eles têm uma base de pesquisa científica) e o aluno ao se formar faz um juramento de trabalhar com ciência.

No mínimo, estranho…

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REFERÊNCIAS

Sagan, C. O Mundo Assombrado pelos demônios – A ciência vista como uma vela no escuro. Companhia das Letras: São Paulo. 1996 .

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