Cuidado! Humanos não têm antenas!

Protetores de antenas de baratas são a novidade no mercado!

Diversas baratas perdem suas antenas ao entrar nas residências humanas, deixando-as completamente desorientadas. Para resolver esse problema ambiental, a empresa Baratex desenvolveu protetores para antenas de baratas.

Para usá-los é muito simples: ao avistar uma barata subindo pelo ralo da sua casa, impeça-a de entrar avisando que ela pode perder as antenas. Chame-a para uma conversa, coloque suavemente os protetores em suas antenas e pronto! A barata poderá circular livremente sem o perigo de ter as antenas arrancadas no processo. Uma inovação que sai por apenas $ 2,99 no pet shop mais próximo.

A mesma empresa anunciou que o próximo passo é o desenvolvimento de protetores de antenas para seres humanos, com o mesmo propósito. “Nós, seres humanos, não podemos mais arriscar perdermos nossa principal ferramenta de orientação natural, as antenas. Por esse motivo os protetores de antenas são extremamente necessários para humanos, assim como são para as baratas”. Disse o diretor e cientista criador do produto, Paul Baratex.

Sim. A notícia acima é uma invenção e tenho certeza que você a achou um total absurdo. Mas acredite, absurdos parecidos com esses realmente acontecem todos os dias.

O ponto alto da nossa fake news – além do fato de conversar com as baratas para convencê-las a usar um protetor de antenas – está no último parágrafo, com o anúncio do “desenvolvimento de protetores de antenas para seres humanos…”

É óbvio que humanos não têm antenas. Mas mesmo se tivessem, a conclusão científica que “humanos precisam de protetores de antenas” não poderia vir de um estudo com baratas. Em outras palavras: para proteger, prevenir e tratar a saúde humana são necessários estudos de proteção, prevenção e tratamento realizados em seres humanos.

Para fabricar protetores de antenas humanos seria necessário, no mínimo:

(1) realizar estudos para verificar se humanos realmente possuem antenas;

(2) se o item anterior for confirmado, realizar estudos para verificar se a falta de protetores de antenas realmente está afetando os humanos;

(3) realizar estudos para verificar a viabilidade e durabilidade dos diversos tipos de materiais utilizados para fazer os protetores de antenas;

(4) realizar diversos estudos clínicos para verificar se os “protetores de antenas humanos” realmente ajudam os seres humanos a manterem sua orientação natural;

(5) replicar todos os passos diversas vezes, reafirmando a nova teoria para realmente “provar cientificamente” que os protetores são um item essencial para a orientação do ser humano.

Esses são passos científicos básicos antes de vender sua descoberta (produto/método) para a população. Ainda ignorei toda a parte burocrática de criar uma empresa, conseguir uma licença para vender o produto, fazer o marketing e por fim, realizar a venda.

Sim, estudos com novas metodologias e tecnologias para seres humanos são realizados em animais – mamíferos em sua grande maioria – nas fases de viabilização do projeto. São os estudos de ciência básica. Praticamente tudo que se conhece do raciocínio científico a respeito do corpo humano possui uma linha de pesquisa em ciência básica com amostras animais, principalmente em camundongos ou ratos (1).

Não quero entrar nas nuances éticas de se utilizar ou não outras espécies para realizar experimentos científicos, deixarei isso para outro texto. Meu ponto é que apesar da aproximação genética que possuímos com nossos primos camundongos, é pouco plausível extrapolar estudos com espécies diferentes da nossa no tratamento de seres humanos.

Quatro pontos são importantes para entender esse contexto:

1) Além das diferenças anatômicas e fisiológicas, alguns critérios na prescrição de um novo tratamento precisam ser adaptados para o uso em humanos. Por exemplo, transcrever a dosagem de um medicamento utilizada em um animal diretamente para um ser humano sem os devidos cuidados pode ser a receita para o desastre. Cálculos e testes são realizados em estudos clínicos pequenos (estudo piloto), antes de ser experimentado em muitas pessoas. É um passo a passo longo, que tem como um dos objetivos proteger os indivíduos que se propuseram a testar o novo procedimento.

2) O novo tratamento precisa ser eficaz em um número grande de pessoas, à longo prazo, para poder provar que a melhora não foi uma coincidência aleatória. Sempre existe a chance de uma pessoa melhorar espontaneamente à curto prazo, independente do tratamento que está realizando. É por isso que estudos bem delineados são testados a curto, médio e longo prazo em grupos homogêneos de pessoas para diminuir a chance de erro.

3) O novo tratamento precisa ser igual ou mais eficaz que outros tipos de tratamento. Pouco adianta um novo procedimento que melhore menos que um tratamento que já existe, a não ser que a longo prazo essas diferenças deixem de existir. Estudos bem delineados comparam novos tratamentos com tratamentos consagrados, diminuindo as chances da melhora ser placebo, além de acentuar os benefícios adicionais do novo tratamento quando comparado aos tratamentos convencionais.

4) Mesmo com todos os cuidados anteriores alguns tratamentos consagrados – descobertos em estudos clínicos bem delineados – foram retirados do mercado devido a efeitos colaterais descobertos anos depois do seu lançamento, apesar de toda a complexidade para se proteger os pacientes. Já imaginou o desastre que aconteceria, se todos os novos tratamentos fossem liberados prontamente depois de testados apenas em animais?

Ponto importante: essas regras acima são aplicadas de forma rigorosa apenas aos medicamentos. Existe uma fiscalização forte sobre as empresas que fabricam os mesmos, evitando transgressões.

Mas outros tratamentos possuem regulamentação escassa ou não possuem regulamentação. É muito comum a extrapolação do raciocínio de estudos com outras espécies de animais para o uso em seres humanos. Diversos métodos com base apenas em ciência básica são criados e vendidos todo ano em praticamente todas as profissões de saúde.

Um grande problema é que profissionais de saúde capacitam-se em muitos desses métodos e os aplicam em seus pacientes, realmente acreditando que estão atendendo baseado em evidência. Estudos de ciência básica tem muitas funções para um profissional de saúde, mas uma coisa a que eles não servem são para a intervenção clínica.

A última grande polêmica que aconteceu no Brasil relacionada a isso, foi sobre a liberação da Fosfoetanolamina, a “pílula do câncer”.

Por um descuido dos cientistas e da imprensa, a Fosfoetanolamina foi anunciada como um tratamento inovador para diversos tipos de câncer. O problema: ela só havia sido testada em camundongos. Familiares e portadores da doença começaram a pressionar o governo através das redes sociais e chegou-se a cogitar a liberação da pílula para venda mesmo antes dos testes definitivos. Era um tratamento promissor, mas ainda não estava pronto para ser utilizado em seres humanos (2, 3, 4, 5, 6, 7).

Prática baseada em evidência só pode acontecer se um profissional de saúde utilizar estudos clínicos controlados realizados entre seres humanos. A não ser que você seja veterinário ou um zootecnista, mas mesmo assim, esses profissionais só podem basear seus atendimentos em evidências da mesma espécie que estão atendendo.

Acredito que a maioria dos profissionais que incentivam essas extrapolações o fazem por desconhecimento científico. Eu mesmo fiz isso antes de começar a entender a ciência um pouco melhor. Falta treinamento em ciência para os profissionais de saúde. Alguns profissionais conhecem as regras sobre o assunto e as ignoram. Não me pergunte o motivo.

De qualquer forma, o prejudicado é o paciente que investe sua saúde em tratamentos que podem não ajudá-lo ou no pior dos casos piorar sua condição. Por isso, caro leitor(a), sempre que você enxergar alguém tentando fazer extrapolações da ciência básica sem os devidos cuidados, avise o máximo de pessoas que puder: “Cuidado! Humanos não têm antenas!”.

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REFERÊNCIAS

1 Fagundes, DJ; Taha, MO. Modelo animal de doença: critérios de escolha e espécies de animais de uso corrente. Acta Cir. Bras.,  São Paulo, v.19, n.1, p. 59-65, Jan. 2004 .

2 Esclarecimentos sobre a fosfoetanolamina | Coluna #29. Drauzio Varella

3 Fosfoetanolamina | Nerdologia

4 A USP, o câncer, e a “cura” (#Pirula 117.1)

5 13 respostas sobre a FOSFOETANOLAMINA (#Pirula 117.2)

6 A Fosfo não funfa? (#Pirula 117.3/133.4)

7 Fosfoetanolamina liberada? (#Pirula 133.3)

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