Repouso na Dor Lombar: tratamento do século passado.

Entre a descoberta de uma nova evidência científica até a sua incorporação na prática clínica pelos profissionais de saúde existe uma lacuna de aproximadamente 17 anos. Ou seja, quando um novo tratamento (intervenção) é comprovado cientificamente, demora 17 anos para todos os pacientes poderem usufruir do mesmo (1, 2, 3)!

Isso significa que diversas pessoas podem estar recebendo tratamentos completamente desatualizados ou ultrapassados!

Quer um exemplo? A aplicação de repouso em indivíduos com dor lombar.

Desde 1986 – século passado (!) – existem evidências que o repouso não é benéfico para dor lombar! Quanto mais tempo uma pessoa ficar em repouso devido a dor na coluna, maior a probabilidade dela ter um nível de dor mais alto, mais incapacidade física e uma recuperação menos favorável (4, 5, 6, 7).

Em 2000, 2005 e 2010 revisões sistemáticas deram o veredito: o repouso é menos efetivo que permanecer ativo para pacientes com dor lombar. Para pacientes com dor lombar com ciático associado existe evidência de alta qualidade que o repouso comparado com o permanecer ativo tem pouco ou nenhum efeito na dor e função (8, 9, 10, 11).

Todas as principais guidelines e diretrizes para tratamento da dor lombar recomendam que os indivíduos permaneçam realizando as suas atividades normalmente. Ficar em repouso só é aceito nos casos de dor extrema e no máximo por 3 dias, pois aumenta as fragilidades, sendo pior a longo prazo (12, 13, 14).

A ciência não é uma verdade absoluta, então não podemos bater o martelo de forma determinista, pois a qualquer momento novas evidências podem surgir para mudar a opinião científica vigente, sendo essa uma das características que considero mais positivas no raciocínio científico. Mas pelo excesso de evidências sobre os malefícios do repouso na dor lombar, acredito que posso ser um pouco mais enfático ao afirmar: a aplicação de repouso na dor lombar é um tratamento do século passado e deve ser “aposentado” por profissionais que seguem a prática baseada em evidências, até que se prove o contrário. E tenho 95% de certeza que será muito difícil “provar o contrário” em relação dor lombar, devido à tendência da literatura atual com o assunto enfatizar a atividade física e o exercício.

Se você for profissional de saúde: aposente essa prática baseada em achismo do século passado, tome vergonha na cara e se atualize.

Se você for paciente: fuja desse profissional, pois o próximo tratamento proposto pode ser algo relacionado a sanguessugas.

Obrigado. De nada.

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REFERÊNCIAS

1 Morris ZS, Wooding S, Grant J.The answer is 17 years, what is the question: understanding time lags in translational research. J R Soc Med. 2011 Dec;104(12):510-20.

2 Westfall JM, Mold J, Fagnan L. Practice-based research–“Blue Highways” on the NIH roadmap. JAMA. 2007 Jan 24;297(4):403-6.

3 Green LW, Ottoson JM, García C, Hiatt RA. Diffusion theory and knowledge dissemination, utilization, and integration in public health. Annu Rev Public Health. 2009;30:151-74.

4 Deyo RA, Diehl AK, Rosenthal M. How many days of bed rest for acute low back pain? A randomized clinical trial. N Engl J Med. 1986 Oct 23;315(17):1064-70.

5 Malmivaara A, Häkkinen U, Aro T, Heinrichs ML, Koskenniemi L, Kuosma E, Lappi S, Paloheimo R, Servo C, Vaaranen V. The treatment of acute low back pain—bed rest, exercises, or ordinary activity? NEJM. 1995;332:351-5.

6 Vroomen PCAJ, de Krom MC, Wilmink JT, Kester ADM, Knottnerus JA. Lack of effectiveness of bed rest for sciatica. NEJM. 1999;340:418-23.

7 Verbunt JA, Sieben J, Vlaeyen JW, Portegijs P, André Knottnerus J. A new episode of low back pain: who relies on bed rest? Eur J Pain. 2008 May;12(4):508-16. Epub 2007 Sep 17.

8 Hagen KB, Hilde G, Jamtvedt G, Winnem MF. The Cochrane review of bed rest for acute low back pain and sciatica. Spine (Phila Pa 1976). 2000 Nov 15;25(22):2932-9.

9 Hagen KB, Jamtvedt G, Hilde G, Winnem MF. The updated Cochrane review of bed rest for low back pain and sciatica. Spine. 2005;30:542.

10 Hagen KB, Hilde G, Jamtvedt G, Winnem M. Bed rest for acute low-back pain and sciatica. Cochrane Database of Systematic Reviews 2010, Issue 6. Art. No.: CD001254.

11 Dahm KT, Brurberg KG, Jamtvedt G, Hagen KB. Advice to rest in bed versus advice to stay active for acute low-back pain and sciatica. Cochrane Database of Systematic Reviews 2010, Issue 6. Art. No.: CD007612.

12 Delitto A, George SZ, Van Dillen L, Whitman JM, Sowa GA, Shekelle P, Denninger TR, Godges JJ, Low Back Pain. Clinical Practice Guidelines Linked to the International Classification of Functioning, Disability, and Health from the Orthopaedic Section of the American Physical Therapy Association. J Orthop Sports Phys Ther. 2012 Apr; 42(4): A1–57.

13 Chou R, Deyo R, Friedly J, Skelly A, Hashimoto R, Weimer M, Fu R, Dana T, Kraegel P, Griffin J, Grusing S, Brodt ED. Nonpharmacologic Therapies for Low Back Pain: A Systematic Review for an American College of Physicians Clinical Practice Guideline. Ann Intern Med. 2017 Apr 4;166(7):493-505.

14 Qaseem A, Wilt TJ, McLean RM1, Forciea MA; Clinical Guidelines Committee of the American College of Physicians. Noninvasive Treatments for Acute, Subacute, and Chronic Low Back Pain: A Clinical Practice Guideline From the American College of Physicians. Ann Intern Med. 2017 Apr 4;166(7):514-530.

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