Qual foi a última vez que você tentou provar que seu raciocínio estava errado?

Meu filho ficou com febre de quase 39 graus. Isso foi numa quinta-feira. A cidade que moro é pequena e possui apenas 2 pediatras, ambos excelentes. Tentamos agendar consulta para o dia seguinte mas não haviam mais vagas. Então optamos por levá-lo ao clínico geral.

O clínico geral fez o diagnóstico: otite média. Olhou o ouvido, disse que estava inflamado e era comum em crianças da idade dele. Os únicos medicamentos indicados para o tratamento: antibiótico a cada 12 horas por 5 dias para a infecção, e antitérmico para ajudar com a febre, a cada 6 horas.

Eu odeio dar antibiótico pro meu filho pequeno! Mas se não tem outra opção… será que não tem mesmo? Como “pai chato baseado em evidências” que sou entrei na base de dados para pesquisar tratamento de otite média em crianças de 2 anos.

Nada muito eficaz, mas a melhor opção ainda era o antibiótico. Eu e minha esposa resolvemos manter.

Após o início do tratamento:

Sexta-feira: 38.5 graus de febre. Aliviava após o uso do antitérmico, mas 6 horas depois voltava a subir. Esperado, pois o antibiótico começa a fazer efeito de 24 a 48 horas depois.

Sábado: 38,5 graus de febre. Mesma reação.

Domingo: 39 graus de febre. Mesma reação.

Domingo a noite, pensei comigo: “nas referências que pesquisei estava escrito que a otite pode persistir por até 7 dias, então essa febre é normal. Ele não está piorando, o sistema imunológico de meu filho está lutando contra a otite!”

Minha esposa pensou diferente: “Ele está piorando, vamos falar direto com o médico pediatra e pedir opinião”. Por nossa sorte um dos pediatras é nosso vizinho de prédio. Conversamos e ele disse que provavelmente minha esposa estava certa, a febre devia ter pelo menos diminuído, mas precisava avaliar melhor. Conseguimos agendar consulta com ele para segunda-feira pela manhã.

Na consulta ele realizou avaliação e para a nossa surpresa, não era otite. Era uma pneumonia. Confirmada por exame de imagem e por alterações no exame de sangue. Mudou o antibiótico, prescreveu inalação. 24 horas depois, bingo. Febre zerada.

Vou deixar de lado o diagnóstico errado do clínico geral e me ater a um ponto importante dessa história: meu viés de confirmação.

Viés de confirmação é a tendência de interpretar informações de modo que sejam compatíveis com nossas ideias, expectativas e nossas convicções. É um dos principais erros de pensamento (1, 2, 3).

De maneira simples, ele serve para facilitar suas decisões, fazendo você achar que na maioria das vezes está certo. É um dos motivos por você realizar suas tarefas diárias sem ficar se questionando o tempo todo se tomou a decisão correta. Você já parou para imaginar quantas decisões tomamos durante o dia de forma automática? Imagine se a toda decisão precisássemos formular uma análise profunda? Provavelmente nosso cérebro ia travar.

Por exemplo, a primeira meia hora da manhã seria para decidir se vale a pena escovar os dentes, já que pode não ser certo gastar água doce (que é finita em nosso mundo) com uma tarefa tão supérflua. Mas antes disso é necessário uma reflexão profunda para saber se é certo guardar o cobertor dobrado na cama ou dentro do armário, mas não, espera… será que é certo dormir com cobertor? Existem pessoas menos afortunadas que moram na rua e nem ao menos tem um cobertor decente… será que não devo doá-los todos e dormir sem nada?

Bom… acho que você entendeu a importância do viés de confirmação.

Voltando a história: a partir do momento que o clínico geral disse que era otite, internalizei esse diagnóstico e fui atrás de referências para entender mais sobre a doença. Quando meu filho não melhorou, após 3 dias de antibiótico, busquei na minha memória algo que confirmasse meu raciocínio (minha crença), para não assumir a piora do meu filho: “eu li nas referências que a otite pode demorar 7 dias a passar, então, é normal essa febre não cessar de imediato.”

Bom, eu estava errado, não era otite. Um ode ao pediatra, profissional especialista que deu de mil a zero no clínico geral e que jogou o viés de confirmação do papai no lixo.

O viés de confirmação é natural ao ser humano. Por outro lado, pode gerar decisões desastrosas para as crenças em saúde. Se você é um paciente com dor em busca de tratamento, lembre-se disso ao fazer uma pesquisa no google e encontrar “exatamente os sintomas que está sentindo” naquele texto que fala sobre os “sintomas de 15 tipos raros de câncer”. Se você for um profissional de saúde, cuidado ao só ler artigos que confirmem seu ponto de vista, ou realizar cursos com profissionais que você concorda totalmente com a opinião. Seja crítico.

O raciocínio científico serve para gerar um contraponto ao viés de confirmação, direcionando nosso pensamento para evidências que contradigam nosso ponto de vista (4). Qual foi a última vez que você estudou sobre algo que não concorda só para tentar refutar seu ponto de vista?

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REFERÊNCIAS

1 Kahneman, D. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

2 Pilati, R. Ciência e Pseudociência. Por que acreditamos apenas naquilo em que queremos acreditar. São Paulo: Contexto, 2018.

3 Dobelli, R. A arte de pensar claramente. Como evitar as armadilhas do pensamento e tomar decisões de forma mais eficaz. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.

4 Sagan, C. O Mundo Assombrado pelos demônios – A ciência vista como uma vela no escuro. Companhia das Letras: São Paulo. 1996.

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