A ciência é uma verdade absoluta?

Sabe aquele seu amigão? É, aquele que você adora mas que é chato as vezes? Estou falando daquele seu amigo… quando você chama ele vem rapidinho, sabe conseguir as coisas como ninguém, é descolado e conhece um monte de gente. Mas tem uma coisa nele que te irrita profundamente e faz você o achar chato: ele sempre tem certeza absoluta de tudo o que faz e fala. Ele entende de tudo, ele conhece de tudo, e só o que ele fala está certo.

Tenho uma novidade pra você: seu amigo provavelmente tem um ponto de vista pouco científico.

Calma, não precisa desfazer a amizade ou afastar seu amigo da sua convivência. Todos somos um pouco absolutos ou “deterministas por natureza”, já que o ser humano surgiu e evoluiu em um ambiente, a savana africana, em que uma atitude errada poderia determinar a sua morte e a de sua tribo (1, 2).

Imagine a cena: você é um ser humano na savana – um caçador coletor – há 200.000 anos atrás, e foi designado a procurar uma nova fonte de água para sua tribo. Em um determinado momento você escuta um barulho, vira-se e vê uma moita grande se mexer de forma “suspeita” há uns 20 metros de onde você está. O que você faz? Analise as opções abaixo e escolha quais delas são as mais plausíveis para esse momento:

1) Fica tranquilo e continua procurando água. É só o vento.

2) Foge sem pensar! Certeza que é um leão faminto!

3) Após 30 minutos analisando as condições do ambiente e realizando cálculos para verificar a veracidade das informações coletadas, você formula sua hipótese e vai até a moita averiguar se sua escolha estava correta. Ou era o vento, ou era um leão faminto.

Tenho certeza absoluta, ou melhor dizendo, existe uma probabilidade alta de você ter escolhido as alternativas 1 e 2 como verdadeiras, mas dificilmente – probabilidade muito baixa – você ter escolhido a alternativa número 3, simplesmente por que ela não faz nenhum sentido nesse momento! Ficar pensando nas probabilidades, neste cenário, pode significar a sua morte.

Por ter evoluído em um ambiente que necessita de uma resposta rápida, a mente humana tem uma característica predominantemente dicotômica, ou seja, em muitos momentos funciona apenas na base do “sim” ou “não”, de forma automática. Nossa mente é extremamente determinista e utiliza de recursos retrospectivos (do passado) para garantir sua sobrevivência no presente e no futuro. Isso significa que ao defendermos nosso ponto de vista, costumamos assumir automaticamente que nossa opinião é a certa e a opinião do outro é a errada, e isso é natural dado o nosso passado evolutivo (3, 4).

PRESTE MUITA ATENÇÃO: ao analisar qualquer situação, o cérebro procura respostas parecidas – padrões que já aconteceram anteriormente – e as utiliza para formular sua resposta naquele momento. Mas como o cérebro humano não tem a capacidade de prever o futuro (astrologia não é uma ciência, espero que você entenda isso), qualquer resposta que ele formule baseado no passado terá sempre uma probabilidade de erro (3, 4).

PRESTE MAIS ATENÇÃO AINDA: já que uma escolha errada – na savana – poderia levar à morte, assumimos que todas as nossas escolhas são as certas, até por que ficar analisando cada situação do seu dia de forma minuciosa e probabilística poderia gerar um “tilt” mental e nos deixar paralisados sem ação. Mas nosso ambiente não é mais a savana e possui muito mais escolhas, é só comparar a savana com uma cidade como São Paulo. Pelos nossos ancestrais terem ficado expostos por muito tempo a ela, o raciocínio determinista ainda é o vigente e gera um viés cognitivo (um erro de interpretação) ao lidarmos com o excesso de informação que nos rodeia.

Nossa mente é automática e determinista, parte da premissa que estamos certos para garantir nossa sobrevivência.

E o que isso tem a ver com a ciência?

O método científico é deliberado e probabilístico, parte da premissa de que estamos errados para formular suas hipóteses (5 – 9).

Por isso é tão difícil para muitos de nós aprender a lidar com o raciocínio científico. Por isso é difícil entender, por exemplo, que dormir em uma posição estranha está associado a dor lombar, mas não é a causa da dor lombar (10, 11). Esse viés cognitivo parece ser um dos motivos de muitos erros de interpretação pelos jornalistas e profissionais de saúde, quando querem explicar uma pesquisa científica para a população (8).

Assumir um raciocínio científico significa assumir que você está sempre errado e que sua hipótese atual pode ser derrubada a qualquer momento por uma nova hipótese. E como temos enraizado em nossos cérebros a sobrevivência a qualquer custo, é dolorido desprender-se de uma ideia (que garante sua sobrevivência), para assumir uma nova ideia (que pode não garantir sua sobrevivência tão bem quanto a ideia antiga).

Esse tipo de conhecimento é extremamente útil em uma consulta de saúde, pois, ao ser atendido por um profissional de saúde, é importante saber que qualquer escolha que ele faça terá uma chance de erro, mesmo que ele trabalhe de uma forma extremamente científica. E isso é normal (7, 12).

Se você for um paciente em procura de tratamento, deve entender que não existe verdade absoluta, apenas uma – pequena, média ou grande – probabilidade do tratamento funcionar para você, naquele momento.

E se você for um profissional de saúde, deverá se acostumar com a ideia de que qualquer técnica, método ou raciocínio que você assuma na avaliação e no tratamento de seus pacientes sempre terá a probabilidade de estar errado e nunca será a verdade absoluta. NUNCA. E afirmo esse “nunca” sabendo que existe uma probabilidade de eu estar errado.

Viu como pode ser complexo esse raciocínio?

Obviamente que existem momentos em que ser determinista é importante (é só lembrar de alguma vez que te acusaram de algo sério que você não tenha feito e qual foi sua reação de resposta). Mas em profissões de saúde que se apoiam na ciência (Fisioterapia, Medicina, Educação Física, Farmácia, Psicologia, Fonoaudiologia, Nutrição…) é “absolutamente” incoerente assumir uma posição determinista.

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REFERÊNCIAS

1 Dawkins, R. O Gene Egoísta. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

2 Lieberman DE. A História do Corpo Humano. Evolução, saúde e doença. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.

3 Mlodinow L. Subliminar: Como o inconsciente influencia nossas vidas. Rio de Janeiro: Zahar, 2014

4 Kahneman, D. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

5 Mlodinow L. O andar do Bêbado. Como o acaso domina nossas vidas. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

6 Wheelan, C. Estatística. O que é, pra que serve, como funciona. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.

7 Greenhalgh T. Como ler artigos científicos: Fundamentos da medicina baseada em evidências: 5ed. Porto Alegre: Artmed, 2015

8 Goldacre C. Ciência Picareta. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

9 Sagan, C. O Mundo Assombrado pelos demônios – A ciência vista como uma vela no escuro. Companhia das Letras: São Paulo. 1996 .

10 Hill AB. The environment and disease: association or causation? Proc R Soc Med 1965;58:295–300.

11 Arthritis Care Res (Hoboken). 2015 Mar;67(3):403-10. What triggers an episode of acute low back pain? A case-crossover study. Steffens D, Ferreira ML, Latimer J, Ferreira PH, Koes BW, Blyth F, Li Q, Maher CG.

12 Simpkin AL, Schwartzstein RM.Tolerating Uncertainty — The Next Medical Revolution? N Engl J Med. 2016 Nov 3;375(18):1713-1715.

2 comentários em “A ciência é uma verdade absoluta?

  1. Muito bom. Lembrou muito a narrativa de Yuval Harari. Abraço!

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    1. Putz! Que honra viu? Confesso que ainda nãi li “Sapiens”, nem “Homo Deus”, mas sei que o autor é muito bom. Os livros estão na minha lista há meses!

      Agradeço pelo comentário.

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