Qual a CAUSA da dor lombar inespecífica?

Primeira postagem de 2019, senhoras e senhores!

Esse texto surgiu de uma dúvida que apareceu diversas vezes no meu Instagram, então resolvi transformá-la em postagem, aqui no blog.

A dor lombar inespecífica tem uma causa! O problema é que ainda não a descobrimos…

Não é porque a dor lombar é classificada como inespecífica, que ela não possui uma causa. Sabemos que 85% a 90% das dores lombares são inespecíficas, sem uma causa aparente.

É aí que está o ponto… “causa aparente” significa que até o momento a ciência não dispõe de ferramentas específicas para diagnosticar os 85% a 90% das dores lombares classificadas como inespecíficas, e estabelecer um diagnóstico preciso é muito difícil. Mas provavelmente a causa existe, em algum lugar ou de alguma forma.

Isso significa que será sempre assim?

Não sabemos, mas é provável que no futuro essa porcentagem diminua, conforme o modelo biopsicossocial seja melhor compreendido e suas ferramentas de avaliação fiquem mais precisas.

Isso significa que podemos dizer que existe uma causa para todas as dores lombares, então?

A resposta é NÃO, já que até o momento NINGUÉM CONSEGUIU DESCOBRIR (diagnosticar) essas causas, ou seja, como ainda não existem estudos de qualidade falando sobre a causa nesses 85% a 90% de problemas inespecíficos, acho mais seguro não assumirmos nenhuma causa por enquanto, apenas lidarmos com os fatores associados.

Parece uma coisa óbvia, mas alguns profissionais – inclusive profissionais com PhD com mais de 30 anos de experiência em pesquisa – afirmam que conseguem “descobrir a causa de todas as dores lombares inespecíficas”, através de uma série de estudos de biomecânica que apontam alterações na coluna de determinados indivíduos.

Isso deve ficar bem claro: de um ponto de vista científico, mesmo que existam diversos estudos de biomecânica, histologia, química, fisiologia ou qualquer outro estudo de ciência básica, não podemos pegar esses estudos e extravasá-los na prática clínica sem um estudo clínico comparativo. Nem muito menos apontar causalidade, sem estudos prospectivos, nem muito menos formular avaliações sem estudos transversais de validação (1).

Não adianta torcer o nariz. A regra não é minha, é da ciência.

Estudos de biomecânica servem pra que, então? Para gerar hipóteses, complementar as teorias, mas essas hipóteses devem ser confirmadas com estudos prospectivos a longo prazo que apontem ou se aproximem da causalidade, além de estudos clínicos que irão apontar o tratamento mais adequado.

Pra deixar claro: um estudo de anatomia com um cadáver, ou com um modelo biomecânico de um disco intervertebral não pode ser extrapolado para a prática clínica com uma pessoa viva.

Essas hipóteses de ciência básica podem até estar corretas, mas pessoas vivas são extremamente mais complexas que cadáveres e modelos biomecânicos. É um risco muito grande afirmar que um problema estrutural é a causa da dor lombar, quando sabemos que fatores como obesidade, sono, catastrofismo, tabagismo, alcoolismo, depressão, dentre outros, também podem estar relacionados a mesma (2, 3, 4, 5, 6).

De um ponto de vista científico, extrapolar um estudo de ciência básica para a prática clínica, mesmo que seja com humanos, é a mesma coisa que pegar um estudo com um rato, e extrapolá-lo à prática clínica (aliás, se você é um profissional de saúde e utiliza estudos com ratos como base pro seu raciocínio clínico, é hora de rever os seus conceitos).

Entenda que isso não é uma crítica aos profissionais que fazem isso, aliás… vou reformular: este texto é uma crítica sim, mas apenas para aqueles profissionais cientistas gabaritados, com doutorado e PhD, que se dizem mestres no assunto, mas continuam ignorando uma regra básica da ciência, insistindo que conseguem apontar causa em tratamentos apenas com estudos de ciência básica (se você não faz parte dessa lista, está perdoado).

“Nossa, Bruno. Você acha que sabe mais que um PhD. Faça-me o favor”.

Confesso que eu adoraria, mas sou apenas um singelo nerd. Mas saiba que esse é um conhecimento básico, e eu já errei nisso, inclusive. Já usei estudos de ciência básica para justificar minha prática clínica, e eu estava errado. A partir do momento que compreendi isso, parei de fazer.

Mas eu, assim como muitos profissionais de saúde que lêem esse blog, não tenho treinamento em metodologia científica. Agora, um profissional com mestrado, doutorado, e PhD cometer um erro básico desses repetidas vezes, ignorando as evidências… é no mínimo estranho.

Mesmo que seja o maior especialista do assunto, mesmo que seja o maior pesquisador do Universo, não dá pra extrapolar estudos de ciência básica para a prática clínica.

Vou repetir de novo, gritando: NÃO DÁ PRA EXTRAPOLAR ESTUDOS DE CIÊNCIA BÁSICA PARA A PRÁTICA CLÍNICA!

E se você for daqueles que adoram extrapolar um estudo com células pra sua prática clínica, aproveite, pois, vou lhe dar a única circunstância em que você pode fazer isso, e mesmo com o enorme viés que isso pode gerar, você estará atendendo baseado em evidências:

De acordo com a prática baseada em evidências, se você não tiver nenhum estudo clínico para justificar a sua prática clínica, você até poderia basear seus atendimentos apenas na sua prática, e nos estudos de ciência básica ou estudos observacionais.

Mas é óbvio que na dor lombar inespecífica, e ouso afirmar em todas as condições musculoesqueléticas, esse não é o caso.

Existem diversos estudos clínicos de boa qualidade, apontando formas de atender a dor lombar inespecífica na prática clínica (Veja minha busca no pubmed sobre isso clicando aqui).

Mensagem para 2019: não acredite na autoridade. Busque pelas evidências.

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REFERÊNCIAS

1  Greenhalgh T. Como ler artigos científicos: fundamentos da medicina baseada em evidências. 5 ed. Porto Alegre: Artmed: 2015

Ferreira PH, et al., Is alcohol intake associated with low back pain? A systematic review of observational studies, Manual Therapy (2012).

3 Shiri R, Karppinen J, Leino-Arjas P, Solovieva S, Viikari-Juntura E. The Association between Smoking and Low Back Pain: A Meta-analysis. The American Journal of Medicine, Vol 123, No 1, January 2010.

4 Shiri R,Karppinen J, Leino-Arjas P, Solovieva S, Viikari-Juntura E. The Association Between Obesity and Low Back Pain: A Meta-Analysis. Am J Epidemiol 2010;171:135–154

5 Wertli MM, Eugster R, Held U, Steurer J, Kofmehl R, Weiser S. Catastrophizing-a prognostic factor for outcome in patients with low back pain: a systematic review. Spine J. 2014 Nov 1;14(11):2639-57

6 Sribastav SS, Peiheng H, Jun L, Zemin L, Fuxin W, Jianru W, Hui L, Hua W, Zhaomin ZInterplay among pain intensity, sleep disturbance and emotion in patients with non-specific low back pain. PeerJ. 2017 May 16;5:e3282

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