5 motivos do porquê exercícios em superfícies instáveis não fazem sentido no tratamento da dor lombar.

Uma revisão magnífica de 2016, faz algumas reflexões muito pertinentes sobre os exercícios convencionais de estabilidade do CORE na dor lombar, e destas, duas me chamaram muita atenção: exercícios convencionais de estabilidade do CORE não utilizam a força de reação do solo a seu favor e são pouco transferíveis para as atividades diárias do indivíduo com dor lombar.

A partir dessas reflexões, não pude deixar de lembrar o quanto o Fisioterapeuta utiliza superfícies instáveis na reabilitação proprioceptiva de seus pacientes com dor lombar (bola suíça, bosu, discos de instabilidade, etc). Assim, baseado no raciocínio de ciência básica e na neurociência da aprendizagem motora, escrevi 5 motivos do porquê o uso de superfícies instáveis na recuperação da dor lombar não fazem sentido, de um modo geral.

Primeiro: a espécie humana nasce, se desenvolve e sobrevive no solo firme há mais de 200.000 anos. O sistema nervoso central utiliza o feedback da força da gravidade através da força de reação do solo para gerar variabilidade motora e manter o equilíbrio estático e dinâmico* durante toda a existência humana. Assim, a maioria das tarefas diárias acontecem em superfícies estáveis, e o corpo humano deve ser re-treinado em uma superfície mais próxima da realidade em que evoluímos e que nosso SNC está adaptado.

*definição de estabilidade…

Segundo: o sistema nervoso central (SNC) funciona por tarefa. A musculatura do tronco deveria ser vista como uma unidade funcional, com os níveis de ativação dos músculos dependendo da tarefa motora. Em outras palavras, quando você aprende a tocar piano, ocorre plasticidade no córtex motor para melhorar a aptidão de coordenação dedos e mãos para tocar piano. Quando você aprende a correr, ocorre plasticidade no córtex motor para melhorar a coordenação cabeça-ombro-tórax-pelve-pernas para correr. Se você aprende a se equilibrar em um bosu ou em um disco proprioceptivo… é isso que o sistema nervoso vai aprender a fazer. Algumas habilidades são transferíveis até certo ponto, mas quanto mais próxima a tarefa estiverem as atividades, melhor vai ser o aproveitamento do SNC.

Terceiro: propriocepção não é apenas bosu e disco de instabilidade. Chega de usar a desculpa que pra trabalhar propriocepção é necessário uma plataforma de instabilidade. Eu também aprendi assim na faculdade de Fisioterapia, e você pode usar se quiser, mas existem muitas formas de se trabalhar propriocepção sem precisar de um bosu, um disco proprioceptivo ou de uma cama elástica. Aliás… você já parou pra pensar que todo exercício é um exercício proprioceptivo? Ou os receptores proprioceptivos só se ativam em cima de uma cama elástica ou um bosu?

Quarto: deixar a sessão mais lúdica não é desculpa para utilizar exercícios na plataforma instável. O lúdico pode ser funcional. Existem diversas formas de trabalhar a propriocepção de forma funcional, com os pés no chão, sem precisar utilizar superfícies instáveis, e ainda deixar a sessão divertida. Procure o trabalho do Ido Portal, Fighting Monkey, Mov Nat ou PlayMobility no Instagram para saber do que estou falando.

Quinto: o treino de força é uma excelente maneira de gerar resposta proprioceptiva e força de reação do solo. Você já fez um levantamento terra? Já treinou utilizando kettlebell? Já experimentou fazer uma caminhada do fazendeiro (farm walk)? Se não, não sabe o que está perdendo. A informação proprioceptiva nesses exercícios é gigantesca. E sim, é possível prescrever levantamento terra para pacientes com dor lombar.

Dito isso tudo. Então por que não propor atividades mais funcionais, baseados nas atividades diárias do seu paciente (e por sua vez na força de reação do solo), ao invés de propor um exercício em cima de uma superfície instável? Não me entenda mal, se você é um admirador das plataformas de instabilidade, você pode continuar a usá-las, tudo tem o seu momento, mas minha reflexão é para você tentar trazer mais os pés do seu paciente pro chão, onde o sistema nervoso central do mesmo está adaptado a trabalhar por todo o seu tempo de vida.

As reflexões desse texto são baseadas na sua grande maioria em estudos de ciência básica, então deve-se tomar o cuidado ao extravasa-las para a prática clínica devido ao alto nível de viés que podem gerar, ok?

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REFERÊNCIAS

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