Os exercícios de estabilização do CORE NÃO tornam a coluna mais estável

Você não leu errado. Eu não fiquei louco. Não é uma pegadinha de fim de ano. Eu realmente afirmei que os exercícios de estabilização do CORE não tornam a coluna mais estável.

Antes de você esbravejar, é necessário entender uma questão que faz toda a diferença: a estabilidade é consequência da massa e da atividade muscular altamente coordenada pelo sistema nervoso central (SNC). Ela acontece com ou sem nossa vontade. É uma resposta do SNC, de acordo com o indivíduo, com a tarefa realizada, e do ambiente em que se está inserido (1-6).

Se não ficou claro: se você consegue se manter em pé com seu celular na mão, enquanto acessa o Instagram, sem nenhum outro suporte a não ser seus pés encostando o chão, nesse momento você está estável. Determinados músculos estão atuando através do SNC para lhe manter assim, quer você queira ou não. Você não fica pensando “preciso me manter em pé, não posso cair”… você simplesmente fica em pé. É automático. Por outro lado, eu posso afirmar que você vai conseguir subir uma escada de olhos fechados pulando em um pé só, simplesmente olhando seu equilíbrio em pé ao acessar o Instagram? Não posso. Pois a tarefa provavelmente não é transferível.

Se eu considerar que você passa sua vida em pé, parado (equilíbrio estático) e não conhece mais nenhum outro padrão de movimento (você é um dos guardas reais do palácio da Inglaterra e fica 24 horas do seu dia na mesma posição), eu poderia dizer que você está estável. Mas, se eu considerar que você muda de movimento a todo momento, assim como todo o resto do mundo (equilíbrio dinâmico), eu só posso dizer que você está estável depois de analisar diversas tarefas suas em momentos diferentes do dia, da semana ou do mês. Sim, eu sei o que você está pensando, e concordo: seres humanos vivem em alternância de equilíbrio estático e dinâmico.

Então, se como profissional de saúde eu só tenho a disposição uma tarefa, em um determinado momento do paciente, seja ela estática ou dinâmica, não é possível afirmar que ele está estável, pois faltam outras referências para completar meu quadro de estabilidade. Faltam outras tarefas, em diversos momentos. Mas… aí vem um grande maaaaaaas… olhando você, o guarda da rainha, parado na mesma posição, eu posso afirmar que você está RESILIENTE na posição em pé, resiliente em um DETERMINADO MOMENTO.

PRESTE MUITO MAIS ATENÇÃO AGORA: quando o paciente com dor lombar realiza um exercício de estabilidade, seja ele estático ou dinâmico, não é possível afirmar que ele está melhorando a sua estabilidade, só é possível afirmar que ele está melhorando a sua resiliência naquele exercício, naquele momento. O termo estabilidade é confundido com resiliência (7).

Fazer uma prancha não vai deixar a coluna do seu paciente mais estável, a prancha vai deixar a coluna do seu paciente mais resiliente para realizar a prancha naquele momento (e talvez um outro momento semelhante de um ponto de vista sensório-motor). Mas será que a prancha, sozinha, é responsável por tornar a coluna do seu paciente mais estável em todos os momentos do seu dia, em todos os momentos da sua semana ou da sua vida? É difícil dizer que sim, pois, as tarefas são muito diferentes, além de não existir literatura sobre esse assunto.

“Mas o meu paciente não faz só prancha, ele faz diversos exercícios diferentes de ativação de CORE em diversos momentos e situações diferentes. Será que mesmo assim não estou gerando mais estabilidade pra ele?”

Não temos essa resposta embasada por artigos clínicos. O que a ciência básica nos faz refletir é que depende, pois a estabilidade continua sendo consequência do indivíduo, da tarefa e do ambiente. Vejamos esses dois exemplos:

Exemplo 1: você passa diversos exercícios pro seu paciente com dor lombar, que ativam seu sistema nervoso central de forma semelhante das suas atividades diárias (entenda aqui, utilizando a gravidade e a força de reação do solo, no mínimo). A ideia geral é que ele está melhorando a sua resiliência em diversos momentos de uma maneira que se aproxima das tarefas do dia a dia, isso talvez influencie na sua estabilidade, mas eu não consigo afirmar que a estabilidade melhore, pois as situações do dia a dia nunca serão iguais as situações de consultório, ou de academia, e terão diversos fatores confundidores que poderão influenciar no “sistema de estabilidade” do seu paciente, como a fadiga, o medo, o sono, o stress e outros fatores biopsicossociais… entendeu?

Exemplo 2: você passa diversos exercícios pro seu paciente com dor lombar, que ativam seu sistema nervoso central de forma totalmente diferente das suas atividades diárias. A ideia geral é que ele também está melhorando a sua resiliência em diversos momentos, mas que serão pouco transferíveis para as atividades diárias, influenciando pouco sua estabilidade do dia a dia. Aqui também as situações do dia a dia nunca serão iguais as situações de consultório, ou de academia, e também terão diversos fatores confundidores que poderão influenciar no “sistema de estabilidade” do seu paciente… os fatores psicossociais citados anteriormente.

Mas não existem estudos clínicos que afirmem isso, e posso estar errado. Essas suposições vieram da ciência básica da estabilidade, que está sendo revista atualmente. A reflexão de alguns pesquisadores contemporâneos é que a base dos exercícios de estabilidade foi construída em princípios incompletos… (7-10) considerando a estabilidade apenas o aumento de rigidez em um determinado momento (pense em todos os exercícios de estabilidade que exigem a ativação do CORE o tempo todo). Será que isso é realmente funcional? Já usei essa piada de mal gosto e vou usar de novo… será que antes de “inventarem” a ativação do CORE, as pessoas saiam tropeçando na rua devido a perda de equilíbrio?

Parece que a estabilidade é adquirida de forma indireta, e está intimamente associada ao equilíbrio. Assim, não seria mais fisiológico começar a trabalhar o equilíbrio, em momentos diferentes, ou realizando circuitos, ou atividades mais funcionais, e não simplesmente ficar ativando um conjunto de músculos em determinada(s) posição(ões)? Ou quem sabe a resposta não seja expor gradualmente o paciente as tarefas em que ele tem dificuldade, sem pensar em estabilidade, e sim em re-ensinar o SNC a se movimentar em diversos momentos?

Aguardando ansioso os próximos capítulos da história da neurociência e da dor lombar…

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REFERÊNCIAS

1 McGill SM, Marshall L, Andersen J. Low back loads while walking and carrying: comparing the load carried in one hand or in both hands. Ergonomics. 2013;56(2):293–302.

2 Arokoski JP, Valta T, Airaksinen O, et al. Back and abdominal muscle function during stabilization exercises. Arch Phys Med Rehabil. 2001;82(8):1089–98.

3 Arokoski JPA, Kankaanpää M, Valta T, et al. Back and hip extensor muscle function during therapeutic exercises. Arch Phys Med Rehabil. 1999;80(7):842–50.

4 Dofferhof A, Vink P. The stabilising function of the mm. iliocostales and the mm. multifidi during walking. J Anat. 1985;140(Pt 2):329.

5 França FR, Burke TN, Hanada ES, et al. Segmental stabilization and muscular strengthening in chronic low back pain: a comparative study. Clinics. 2010;65(10):1013–7.

6 Shumway-Cook A, Woollacott MH. Motor Control: Translating Research Into Clinical Practice. 3rd ed. Philadelphia, PA: Lippincott Williams & Wilkins; 2007.

7 Reeves NP, Narendrac KS, Cholewicki J. Spine stability: the six blind men and the elephant. Clin Biomech (Bristol, Avon). 2007 March ; 22(3): 266–274

8 Lederman E. The myth of core stability. Journal of Bodywork & Movement Therapies (2010) 14, 84-98

9 Wirth K, Hartmann H, Mickel C, Szilvas E, Keiner M, Sander A. Core Stability in Athletes: A Critical Analysis of Current Guidelines. Sports Med. 2016 Jul 30.

10 Reeves NP, Cholewicki J. Expanding our view of the spine system. Eur Spine J. 2010 Feb;19(2):331-2.

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