Qual a diferença entre a dor lombar específica e a inespecífica?

Você sabia que apenas em uma minoria de casos de dor lombar, a causa do problema realmente está na coluna?

Me dei conta de que falo muito sobre dor lombar, mas nunca expliquei de forma clara um dos pontos mais importantes sobre o assunto: a diferença entre a dor lombar específica e a dor lombar inespecífica.

Esse é um assunto que gera muita confusão, pois grande parte dos indivíduos procurando tratamento (além de alguns profissionais de saúde) confundem o caráter da dor lombar, achando que pelo fato de uma pessoa “sentir a dor na coluna” a causa do problema estaria “sempre na coluna”. Mas isso não é totalmente verdade.

É aí que entra o caráter específico ou inespecífico, que refere-se a características de diagnóstico da dor lombar:

Dor lombar específica: são dores que ocorrem devido a fatores estruturais e/ ou sistêmicos (doenças ou alterações locais) que estão causando a dor na coluna, ou seja, neste caso a dor realmente acontece por que existe uma alteração nas estruturas da coluna ou nos arredores. Por exemplo: fraturas, tumores, doenças reumáticas, problemas renais, alguns casos de *hérnias de disco ou compressão dos nervos da coluna, dentre outros (1, 2).

O senso comum dita que toda dor na coluna acontece pois existe alguma estrutura na coluna ou nos arredores que está gerando o problema. Por exemplo, uma hérnia de disco comprime o nervo das costas e causa dor. Mas nem sempre isso acontece.

Na realidade as evidências científicas mais atualizadas sobre o assunto afirmam que apenas 5% a 10% dos casos de dor lombar acontecem por fatores causais que estão na coluna, ou seja, a maioria das dores lombares não acontecem por doenças ou alterações na coluna e nos arredores (1).

A maioria dos casos de dor lombar se caracterizam como inespecíficos.

Dor lombar inespecífica: significa que a dor lombar não pode ser atribuída a uma causa localizada nas estruturas da coluna ou nos arredores, mas sim a uma interação de diversos fatores. Correspondem de 85% a 90% dos casos! Divide-se ainda em dor lombar inespecífica não-complexa e dor lombar inespecífica complexa (1 – 4).

É importante frisar que o caráter inespecífico da maioria das dores lombares não significa que as mesmas não possuam uma causa. Porém, devido a sua complexidade, a ciência não consegue encontrar uma causa, apenas fatores associados ao problema. Pra você ter noção, a dor lombar possui associação com mais de 200 fatores, mas nenhum deles pode ser chamado de causa.

Pra começar a imaginar a dificuldade de diagnóstico na dor lombar inespecífica, faça um jogo mental: imagine uma orquestra com 58 músicos, cada um tocando um tipo de instrumento diferente ao mesmo tempo. Agora imagine que um violinista, um pianista, um flautista e um harpista desafinem uma nota ao mesmo tempo e por conta disso a orquestra inteira perde o tom.

De quem foi a culpa? Do violinista, do pianista, do flautista ou do harpista? Ou será que foi o maestro que deu um sinal errado e eles desafinaram?

E se fosse uma orquestra com mais de 200 músicos, com 17 desafinando… como saber de quem é a culpa? É praticamente impossível, já que a orquestra é um sistema tão complexo e tem tanta informação acontecendo ao mesmo tempo que fica difícil saber onde começou a desafinação. É provável que descubram algumas associações e consigam gerar algumas hipóteses sobre onde o problema começou, mas dificilmente conseguirão encontrar um fator causal único.

Substitua a desafinação pela dor lombar inespecífica e os músicos por fatores de risco associados ao desenvolvimento da mesma e você começará a entender toda a dificuldade em achar uma causa. Diversas informações que se cruzam formando um sistema tão complexo que impede saber onde o problema começou, onde ele vai terminar e como resolvê-lo (5, 6).

Um adendo sobre a hérnia de disco: possuir uma hérnia de disco não significa que existirá dor na coluna lombar, nem mesmo que essa dor será classificada como específica. Esse é outro fator que gera confusão. Hérnias de disco podem estar presentes tanto nas dores lombares específicas, quanto nas inespecíficas. A investigação dos sinais e sintomas dos indivíduos com dor é essencial antes de sugerir qualquer classificação ou diagnóstico.

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REFERÊNCIAS

1 Smart KM, Blake C, Staines A, Doody C. The Discriminative validity of “nociceptive,” “peripheral neuropathic,” and “central sensitization” as mechanisms-based classifications of musculoskeletal pain. Clin J Pain. 2011 Oct;27(8):655-63.

2 Hartvigsen J, Hancock MJ, Kongsted A, Louw Q, Ferreira ML, Genevay S, Hoy D, Karppinen J, Pransky G, Sieper J, Smeets RJ, Underwood M. Lancet Low Back Pain Series Working Group. What low back pain is and why we need to pay attention. Lancet. 2018 Jun 9;391(10137):2356-2367. 

3 OʹSullivan, P. 2005. Diagnosis and classification of chronic low back pain disorders: Maladaptive movement and motor control impairments as underlying mechanism. Manual Therapy, 10, 242‐255.

4 Maher C, Underwood M, Buchbinder R. Non-specific low back pain. The Lancet. Volume 389, Issue 10070, 18–24 February 2017, Pages 736-747

5 Buchbinder R, van Tulder M, Öberg B, Costa LM, Woolf A, Schoene M, Croft P. Lancet Low Back Pain Series Working Group. Low back pain: a call for action.  Lancet. 2018 Jun 9;391(10137):2384-2388.

6 Clark S, Horton R. Low back pain: a major global challenge. Lancet. 2018 Jun 9;391(10137):2302.

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