Existe relação das curvas da coluna e dor lombar?

Existem evidências conflitantes na literatura sobre a relação entre as funções da curva lombar lordótica e suas interações com as disfunções de coluna. Alguns estudos evidenciam que as curvas sagitais da coluna tem uma influência na relação com a dor lombar, outros não (1, 2, 3, 4, 5).

Para sanar de vez essa dúvida, nada melhor que procurarmos evidência no topo da nossa pirâmide de evidências, as revisões sistemáticas. Duas revisões analisaram a relação entre as curvas da coluna com dor lombar:

A primeira, de 2008, analisou 54 estudos (caso-controle, transversal e coorte) e não encontrou evidência forte para nenhuma associação entre as curvas da coluna no plano sagital e dor na coluna. Encontraram evidência insuficiente para uma associação entre as curvas da coluna vertebral sagital e todos os outros desfechos relacionados à saúde, dentre estes: dor lombar, doença degenerativa do disco lombar sintomático, hérnia de disco, dor cervical, dor torácica, dor de cabeça tipo tensão, perda de massa óssea, distúrbios ventilatórios, fratura, risco de queda prejudicial (6). Um problema dessa revisão é que a maioria dos estudos eram de qualidade metodológica baixa, o que deixa brechas para novos estudos mostrarem o oposto.

A segunda, de 2014, incluiu 43 estudos e sintetizou informação de dados de pessoas com e sem dor lombar, comparando 6 características: ângulo da lordose lombar, amplitude de movimento (ADM) da lordose lombar, contribuição da lombar versus quadril no movimento, anteriorização pélvica, velocidade e propriocepção. Os resultados mostraram que pessoas com dor lombar, quando comparadas a pessoas sem dor, apresentam ADM reduzida, se movem de forma mais lenta e tem propriocepção reduzida, quando comparadas com pessoas sem dor lombar. Apesar da ADM reduzida, as mesmas não apresentam nenhuma diferença no ângulo da lordose, nenhuma diferença na contribuição da ADM da lombar versus a ADM do quadril em flexão total, e nenhuma diferença na anteriorização pélvica em pé (7).

Esses resultados sugerem que os fatores estáticos (ângulo da lordose e anteriorização pélvica) não contribuem na avaliação de disfunções na lombar. As formas mais fidedignas de avaliação seriam os fatores dinâmicos (amplitude de movimento, velocidade e propriocepção). Contudo, a heterogeneidade entre os estudos incluídos nesta meta-análise parece ter sido subestimada, e o fato dos dados serem transversais (coletados em um determinado momento), não aponta uma relação causa-efeito, nem uma via de tratamento clínico (7).

O aspecto entre a relação entre a curva lombar lordótica e a dor lombar é complexo, mas com os dados que temos em mãos podemos afirmar que provavelmente a avaliação estática das curvas da coluna não auxilie no diagnóstico cinético funcional.

Um grande problema na avaliação da coluna é que os dados dos estudos vem de sua grande maioria de estudos transversais, que permitem apenas associação em um dado momento. Uma vez que a dor lombar é um problema multifatorial e multidimensional, e o alinhamento sagital do complexo lombo-pélvico é altamente variável, encontrar uma tendência consistente nas alterações da curvatura lombar em pacientes com dor lombar pode ser extremamente difícil com uma avaliação estática, baseada em dados transversais.

Semana que vem, no último texto na série sobre Postura e Dor Lombar, falarei sobre algumas hipóteses interessantes que vem surgindo, em relação ao sentar e a dor lombar.

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REFERÊNCIAS

1 Harrison DE, Harrison DD, Troyanovich SJ. Reliability of spinal displacement analysis of plain x-rays: a review of commonly accepted facts and fallacies with implications for chiropractic education and technique. J Manipulative Physiol Ther 1998;21:252-66.

2 Paulk GP, Harrison DE. Management of a chronic lumbar disk herniation with chiropractic biophysics methods after failed chiropractic manipulative intervention. J Manipulative Physiol Ther 2004;27:579.

3 Troyanovich SJ, Harrison DE, Harrison DD. Structural rehabilitation of the spine and posture: rationale for treatment beyond the resolution of symptoms. J Manipulative Physiol Ther 1998;21:37-50.

4 Balague F, Troussier B, Salminen JJ. Non-specific low back pain in children and adolescents: risk factors. Eur Spine J 1999; 8:429-38.

5 Ames RA. Posture in the assessment, diagnosis and treatment of chronic low back pain. J Aust Chiropr Assoc 1985;15: 21-31.

6 Christensen ST, Hartvigsen J. Spinal curves and health: a systematic critical review of the epidemiological literature dealing with associations between sagittal spinal curves and health. J Manipulative Physiol Ther 2008;31:690-714

7 Laird RA, Gilbert J, Kent P, Keating JL. Comparing lumbo-pelvic kinematics in people with and without back pain: a systematic review and meta-analysis. BMC musculoskeletal disorders. 2014;15:229.

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