“Dr, mas quantas sessões vou precisar fazer?”

“Dr, mas quantas sessões vou precisar fazer?”

Tenho certeza que você já ouviu essa pergunta na prática, com seu paciente com dor lombar ou qualquer outro tipo de disfunção. E tenho certeza que já teve a sensação de fazer contas complicadíssimas na sua cabeça por 2 segundos antes de responder a essa pergunta de forma calma.

Mas independente do número de sessões, você tem total convicção que o “seu tratamento” realmente vai curar o paciente no número de sessões que você sugere?

Se você respondeu sim à pergunta acima, parabéns. Você é foda, e eu invejo você. E não estou sendo sarcástico quando escrevo isso, realmente estou sendo sincero. Mas sinto lhe dizer que provavelmente você usa de outros fatores além da sua “técnica” para obter melhora na prática clínica, e talvez seu tratamento nem seja a principal via de melhora do seu paciente.

Com ciência, lidamos com probabilidades. Quando um estudo mostra que existe eficácia de um tratamento, ele quer dizer que existe uma grande probabilidade daquele tratamento funcionar de forma específica naquela determinada população em determinado momento. Mas nunca é uma afirmação exata. E nunca vai funcionar para todos exatamente da mesma forma. É uma aproximação.

Isso porque existem efeitos inespecíficos que atuam no tratamento. Entenda como placebo, mas existem outros. Pra ser o mais claro e didático possível: o ambiente do consultório, o jeito que você se comporta e se veste, o que você espera que aconteça, e o que o paciente espera receber na consulta podem afetar o resultado. Por exemplo: sua clínica pode ser linda, aconchegante, sua secretária pode ser super educada e tratar o paciente bem, recebendo-o com um cafezinho. Ao entrar na sua sala, ela tem uma luz amarela, baixa, que tem um efeito calmante. Suas roupas extremamente brancas passam um ar de limpeza, seus cabelos extremamente bem feitos e seus  óculos passam um ar de experiência, além do seu tom de voz calmo e a forma com que você olha nos olhos do paciente enquanto conversa com ele passarem um ar de autoridade. Ao começar o tratamento com terapia manual (por exemplo), o paciente escuta o barulho do estalo, que ele sabe que vai arrumar sua coluna (já que seu vizinho avisou que isso ia acontecer), e fica aliviado. Ao sair do seu consultório, você avisa que ele pode ter uma piora nas próximas 24 horas, mas que irá melhorar no máximo em 2 ou 3 dias. Acontece exatamente o previsto, e ele fica feliz. Sua dor vai embora.

Entenda que isso não é uma crítica a forma que você atende. Usei a terapia manual como exemplo, mas poderia ser uma sessão de Pilates ou de Exercício Aeróbio. Tudo que acontece em uma consulta faz parte do tratamento. Queira você controlar de forma consciente, ou não. O placebo e os outros efeitos inespecíficos sempre estarão envolvidos. Aliás… de 30% a 40% de tudo o que acontece na sessão é efeito inespecífico.

Gostaria de dividir isso contigo, para você saber que nem sempre tudo sai da forma que esperamos. Pode ser que o ar condicionado da clínica tenha quebrado bem no dia da primeira consulta e o ambiente não fique tão aconchegante. Sua secretária pode estar de mal humor e o café seja servido frio, ou a lâmpada da sala queime bem na hora que o paciente entre, ou seu jaleco branco tenha sujado na consulta anterior, já que a caneta estourou dentro do bolso.

Por isso volto a perguntar: “Dr, mas quantas sessões vou precisar fazer?”

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REFERÊNCIAS

Não me baseei em nenhum artigo específico para escrever esse texto, apenas leitura científica prévia de muitos assuntos. Mas se você quiser começar a entender um pouco mais sobre o efeito placebo e outros efeitos inespecíficos na prática clínica sugiro os artigos abaixo:

Testa M, Rossettini G. Enhance placebo, avoid nocebo: How contextual factors affect physiotherapy outcomes. Man Ther. 2016 Aug;24:65-74.

Miller FG, Rosenstein DL. The nature and power of the placebo effect. J Clin Epidemiol. 2006 Apr;59(4):331-5.

Clin Ther. 2017 Mar;39(3):477-486. The Placebo and Nocebo Phenomena: Their Clinical Management and Impact on Treatment Outcomes. Chavarria V, Vian J, Pereira C, Data-Franco J, Fernandes BS, Berk M, Dodd S.

Georgy EE, Carr EC, Breen AC. Met or matched expectations: what accounts for a successful back pain consultation in primary care? Health Expect. 2013 Jun;16(2):143-54.

White KB, Lee J, Williams ACC. Are patients’ and doctors’ accounts of the first specialist consultation for chronic back pain in agreement? J Pain Res. 2016; 9: 1109–1120.

Mlodinow L. O andar do Bêbado. Como o acaso domina nossas vidas. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

Wheelan, C. Estatística. O que é, pra que serve, como funciona. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.

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