Qual a fórmula de sucesso na dor lombar? Relato de caso

Ricardo tem 18 anos, estudante e ciclista amador. Pedala 5 vezes por semana. Chegou na fisioterapia, com diagnóstico de ciatalgia, após ser encaminhado pelo médico, com uma queixa de dor irradiada na perna direita ao esforço, após começar a pedalar em intensidade moderada.

O Fisioterapeuta, em concordância com o diagnóstico médico, e sendo especialista em terapia manual fez sua avaliação. Bingo: encontrou tensão e ponto gatilho no piriforme homolateral, além de falta de mobilidade pélvica associada. Seu tratamento baseou-se em manobras de liberação miofascial e técnicas de mobilização articular no quadril. Ricardo sentiu alívio imediato nas tensões. Quando voltou ao treino e pedalou novamente, sua dor retornou. Fez mais 9 sessões com o Fisioterapeuta Especialista em Terapia Manual, com o mesmo resultado.

Desistiu. Partiu pra outro Fisioterapeuta indicado. Este, era especialista em Estabilização do CORE, e descobriu em sua avaliação que os músculos superficiais do CORE de Ricardo estavam instáveis, por um atraso no tempo de ativação dos músculos profundos, o que gerava uma tensão excessiva na sua perna ao pedalar, como forma de compensação. Propôs 12 semanas de exercícios de fortalecimento do CORE, duas vezes por semana, no solo ou com ajuda de equipamentos. Ricardo sentiu-se bem durante as sessões. Sentiu seu CORE mais estabilizado. Mas quando voltava ao treino e pedalava novamente, sua dor retornava. Esperou chegar ao fim das 12 semanas, esperando resultado com o passar do tempo. Nada. Sua dor mantinha-se ao esforço.

Sua dor começou a aumentar. Ricardo começava a ficar apreensivo, pensando que não conseguiria mais pedalar. Procurou um profissional de Educação Física, indicado pelo médico. Este, propôs um trabalho focado em flexibilidade e fortalecimento geral por mais 12 semanas, juntamente com treinamento funcional voltado a atletas de ciclismo. Ricardo sentiu-se bem nas sessões, mas mais um vez, ao voltar aos seus treinos, sua dor continuava a mesma. Agora, Ricardo sentia uma leve dor na coluna lombar também, além da sua dor a perna.

Passadas às 12 semanas, desistiu novamente. Procurou novo Fisioterapeuta, especialista em recuperação funcional e exercícios de preferência direcional. Ricardo aprendeu que deveria fazer movimentos do tronco em uma direção para centralizar sua dor na coluna, o que aliviou sua dor na coluna, mas não obteve nenhum efeito em suas dores na perna ao pedalar. Realizava esse tratamento uma vez por semana com o Fisioterapeuta, e todos os dias em casa, três a quatro vezes por dia durante 6 semanas. Mais uma vez, ao voltar aos seus treinos, não obteve melhora.

Foi então que o medo se instalou em Ricardo. Ele começou a acordar no meio da noite, com palpitação no peito, quadros de ansiedade e aumento da dor. Agora sua dor acontecia em momentos além do ciclismo, e começava a atrapalhar sua rotina diária. Na internet, descobriu um Fisioterapeuta que tratava as dores físicas e psicológicas através de abordagens baseadas em neurociência. Preencheu questionários que apontaram que possuia fatores psicossociais fortes que estavam influenciando sua dor, que nesse momento, já era crônica, e sem causa definida. Em 6 sessões, uma vez por semana, conseguiu controlar seu medo e suas crises de ansiedade, mas sua dor na perna, continuava.

Desistiu novamente. Ricardo já havia desistido de pedalar e preparava-se para começar novo esporte. Algo que não precisasse das pernas, quem sabe. Mas foi aí que um amigo próximo indicou uma clínica de Fisioterapia Esportiva, especializada em atletas. Ao chegar lá, percebeu que não havia nada de especial no lugar. Nenhuma técnica diferente, nenhuma abordagem inovadora. Mas nesse lugar, o Fisioterapauta resolveu avaliar Ricardo de uma forma mais específica. Fez parte de sua avaliação na bicicleta, enquanto pedalava. As dores de Ricardo tornaram a piorar, e foi então que o Fisioterapeuta ao olhar as pernas do paciente, percebeu uma característica especial, uma diferença de coloração nas pernas. Desconfiou de um problema vascular, e encaminhou Ricardo a um colega que sabia fazer uma avaliação mais direcionada. Bingo: estenose no eixo vascular da perna direita.

Ricardo confirmou o diagnóstico com exames de imagem, e marcou cirurgia para a semana seguinte. 5 horas de cirurgia depois, seu problema fora resolvido. Após um breve período de resguardo, voltou a pedalar. Suas dores? Desapareceram.

Quase 2 anos após começar sua jornada em busca de tratamento, Ricardo descobriu que seu problema nada tinha de mecânico, ou psicossocial como proposto pelo Médico, pelos Fisioterapeutas e pelo Profissional de Educação Física. Era um problema vascular, resolvido cirurgicamente.

Moral da história: De nada adianta as melhores técnicas, os tratamentos da moda, se o básico não foi feito, ou seja, uma boa anamnese e um bom diagnóstico cinético funcional.

Esse relato de caso foi baseado em um outro relato de caso da JOSPT, uma das maiores revistas científicas de Fisioterapia do mundo. Nele, o paciente, Geoff, com os mesmos sintomas de nosso paciente imaginário Ricardo, sofreu com dores por 35 anos (!), acredite se quiser. Nesses 35 anos ele passou por todas as abordagens Fisioterapêuticas da moda, como Terapias Manuais, Estabilização Segmentar, Método Mackenzie, Abordagem Biopsicossocial e por aí vai.

A ciência evolui a cada dia, e os tratamentos também. Essa não é uma crítica a quem utiliza esses métodos, que possuem evidências científicas de sua eficácia. É apenas um alerta, para não esquecermos que um dos princípios da prática baseada em evidência, é a expertise clínica do profissional, para saber o momento de utilizar cada ferramenta. Ignorar todo o arcabouço de conhecimento básico, em troca de uma “fórmula momentânea de sucesso”, não combina com o raciocínio clínico baseado em evidências.

Será, querido leitor, que não vale a pena se ater ao básico?

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REFERÊNCIAS

Taylor AJ, Kerry R. When Chronic Pain Is Not “Chronic Pain”: Lessons From 3 Decades of Pain. J Orthop Sports Phys Ther 2017;47(8):515-517.

2 comentários em “Qual a fórmula de sucesso na dor lombar? Relato de caso

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