Três questões importantes para seu paciente com dor lombar

Será que você já passou por algo parecido? O indivíduo com dor lombar crônica procura seus atendimentos, e depois de 3 ou 4 sessões desiste do tratamento pois procurava uma melhora mais rápida para seu problema.

Não estou julgando de forma alguma este indivíduo, pois sofrer com dor lombar (às vezes por anos) realmente é uma situação desesperadora. Mas, pela dor lombar ter características multifatoriais (1, 2 3, 4, 5, 6), torna-se urgente que estes indivíduos sejam educados em 3 questões importantes:

1. Quanto mais tempo se sofre com dor lombar, menos a sua dor está relacionada com fatores locais, e mais com fatores centrais.

A relação entre a dor e o estado dos tecidos torna-se menos previsível quando a dor persiste por muito tempo (7). O sistema nervoso central adapta-se a dor, mudando a configuração do seu “alarme de dor” para “mais sensível”, ou seja, o alarme de dor começa a disparar com estímulos que normalmente não causariam dor. Desta forma, fica difícil encontrar uma causa específica pra dor, e por conseguinte um “remédio” específico para a causa. Mesmo técnicas de tratamento consideradas excepcionais à curto prazo – normalmente procuradas pelos indivíduos com dor – têm sido consideradas pouco eficientes a longo prazo por estudos de alto nível de evidência (8, 9, 10, 11).

2. O exercício deve ser adaptado à condição.

Costumo enfatizar muito a importância da atividade física para a recuperação da dor lombar (12). E toda atividade física para ter o efeito desejado, precisa de algumas semanas de prática, além de volume, intensidade e repouso adequados. Quando alguém entra na academia e começa a fazer musculação, precisa de um tempo de adaptação antes de começar a ganhar resistência, força ou simplesmente o corpo dos sonhos. Com a dor não é diferente, o corpo precisa de tempo para receber os benefícios do exercício para modulação da dor, e cada exercício terá um tempo diferente para começar a atuar (13, 14, 15, 16, 17).

3. A força de vontade e o foco no tratamento são essenciais para o manejo da dor.

Parece papo de livro de auto ajuda, mas é neurociência. A força de vontade está relacionada à crença que o indivíduo possui no tratamento, ou seja, sua expectativa positiva (placebo) ou negativa (nocebo). O efeito placebo, quando “invocado” pela força de vontade do indivíduo, gera uma cascata hormonal analgésica, ajudando a diminuir a dor. O efeito nocebo faz o oposto (18).

Já o foco, é o ingrediente principal para construir novas conexões cerebrais, causando readaptação cerebral, mais conhecida como plasticidade. A plasticidade acontece ao aprender uma nova tarefa, como uma nova língua, um novo esporte ou aprender a se movimentar sem dor. Assim, exige concentração e tempo de prática para ser assimilada pelo sistema nervoso central e funcionar de forma automática (19, 20).

Não sei se ficou claro, mas a variável tempo, é extremamente importante nos tratamentos de dor lombar crônica.

Em um mundo imediatista, aonde indivíduos com dor crônica sofrem por conta de fatores como ansiedade e depressão (falta de tempo presente), stress (excesso de tempo em alerta), insônia (falta de tempo de sono) e sedentarismo (excesso de tempo em repouso), torna-se importante conscientizar as pessoas com dor que talvez o melhor remédio para qualquer momento seja o tempo…

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REFERÊNCIAS

1 Asavasopon S. Chronification of low back pain: getting to the spine of the problem. Braz J Phys Ther. 2017, https://doi.org/10.1016/j.bjpt.2017.11.001

2 Richmond J. Multi-factorial causative model for back pain management; relating causative factors and mechanisms to injury presentations and designing time- and cost effective treatment thereof. Medical Hypotheses 79 (2012) 232–240.

3 Shiri R, Karppinen J, Leino-Arjas P, Solovieva S, Viikari-Juntura E. The Association Between Obesity and Low Back Pain: A Meta-Analysis. Am J Epidemiol 2010;171:135–154

4 Shiri R, Falah-Hassani K, The effect of smoking on the risk of sciatica: A meta-analysis, The American Journal of Medicine (2015), doi: 10.1016/j.amjmed.2015.07.041.

5 Hoogendoorn WE, Bongers PM, de Vet HC, Douwes M, Koes BW, Miedema MC, Ariëns GA, Bouter LM. Flexion and Rotation of the Trunk and Lifting at Work Are Risk Factors for Low Back Pain. Results of a Prospective Cohort Study. Spine (Phila Pa 1976). 2000 Dec 1;25(23):3087-92.

6 The epidemiology of back pain and its relationship with depression, psychosis, anxiety, sleep disturbances, and stress sensitivity: Data from 43 low- and middle-income countries. Stubbs B, Koyanagi A, Thompson T, Veronese N, Carvalho AF, Solomi M, Mugisha J, Schofield P, Cosco T, Wilson N, Vancampfort D.

7 Moseley GL. Reconceptualising Pain According to Modern Pain Science. Physical Therapy Reviews 2007; 12: 169–178

8 Motor control exercise for chronic non-specific low-back pain. Saragiotto BT1, Maher CG, Yamato TP, Costa LO, Menezes Costa LC, Ostelo RW, Macedo LG. Cochrane Database Syst Rev. 2016 Jan 8;(1):CD012004. doi: 10.1002/14651858.CD012004.

9 Smith BE, Littlewood C, May S. An update of stabilisation exercises for low back pain: a systematic review with meta-analysis. BMC Musculoskelet Disord. 2014;15(1):416.

10 Parreira Pdo C, Costa Lda C, Hespanhol LC Jr, Lopes AD, Costa LO. Current evidence does not support the use of Kinesio Taping in clinical practice: a systematic review. J Physiother. 2014 Mar;60(1):31-9.

11 Wegner I, Widyahening IS, van Tulder MW, Blomberg SE, de Vet HC, Brønfort G, Bouter LM, van der Heijden GJ. Traction for low-back pain with or without sciatica. Cochrane Database Syst Rev. 2013 Aug 19;(8):CD003010. doi: 10.1002/14651858.CD003010.pub5.

12 van Middelkoop M, Rubinstein SM, Verhagen AP, Ostelo RW, Koes BW, van Tulder MW. Exercise therapy for chronic nonspecific low-back pain. Best Pract Res Clin Rheumatol. 2010 Apr;24(2):193-204.

13 Hoffmann TC, Maher CG, Briffa T, Sherrington C, Bennell K, Alison J, Singh MF, Glasziou PP. Prescribing exercise interventions for patients with chronic conditions. CMAJ. 2016 Apr 19;188(7):510-8. doi: 10.1503/cmaj.150684. Epub 2016 Mar 14.

14 Meng X-G, Yue S-W: Efficacy of aerobic exercise for treatment of chronic low back pain: a meta-analysis. Am J Phys Med Rehabil 2015;94:358-365.

15 Vanti C, Andreatta S, Borghi S, Guccione AA, Pillastrini P, Bertozzi L (2017): The effectiveness of walking versus exercise on pain and function in chronic low back pain: a systematic review and meta-analysis of randomized trials, Disability and Rehabilitation, DOI: 10.1080/09638288.2017.1410730

16 Ishak NA, Zahari Z, Justine M Effectiveness of Strengthening Exercises for the Elderly with Low Back Pain to Improve Symptoms and Functions: A Systematic Review. Scientifica (Cairo). 2016;2016:3230427.

17 Steele J, Bruce-Low S, Smith D. A review of the clinical value of isolated lumbar extension resistance training for chronic low back pain. PM R. 2015 Feb;7(2):169-87.

18 Chavarria V, Vian J, Pereira C, Data-Franco J, Fernandes BS, Berk M, Dodd S. The Placebo and Nocebo Phenomena: Their Clinical Management and Impact on Treatment Outcomes. Clin Ther. 2017 Mar;39(3):477-486.

19 Doidge N. O Cérebro que Se Transforma. Record. Rio de Janeiro. 2011

20 Doidge N. O Cérebro que Cura. Record. Rio de Janeiro. 2016

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