O mito que sentar causa dor lombar

Por muitos anos divulguei exaustivamente pro mundo e principalmente para colegas de profissão que ficar sentado era uma das principais causas da dor lombar, mas felizmente a ciência me mostrou outro ponto de vista.

Em ciência, de forma resumida, para algo ser considerado causa de uma disfunção/doença ele necessita de diversas associações somadas entre si, ou seja, diversos critérios que vão se acumulando. Quando na prática clínica, afirmamos para o paciente que algo “causa” seu problema estamos querendo dizer que existe um fator único, dentre inúmeras probabilidades físico-química-biológica-psico-social-cultural de aquilo desencadear uma disfunção/doença. Algo muito difícil de acontecer em nosso estilo de vida caótico. Por isso chegar na causa nem sempre é tão simples assim, pois, diversas variáveis se confundem. O assunto causalidade é um assunto complexo que demandaria mais um ou dois textos sobre o assunto, por isso, pesquise sobre os critérios de Bradford Hill´s, se desejar saber mais sobre isso, por enquanto (1).

Existem dois estudos que mostram associação significativa entre o sentar e a dor lombar. Um estudo de 2015, encontrou associação entre o tempo que se passa sentado com alta intensidade da dor lombar em alguns tipos de trabalhadores. Apesar de interessante, ainda não é muita coisa, já que o estudo é transversal, ou seja, dentre muitas variáveis, o ato de ficar sentado exerce certa influência, em um determinado momento, mas não é de forma alguma fator decisivo para gerar o problema (2). Outro estudo de 2017, mostrou que em pessoas que realizavam diversas atividades durante um período de 24 horas, a única atividade associada de forma significativa a aumento na dor lombar foi o ficar sentado por mais de 6 horas. Porém, quando olhamos a estatística vemos que existe uma variação razoável no odds ratio (OR 4.2, 95% CI 1.9-9.1; p < 0.001), o que mais uma vez diminui as chances de  causalidade (3).

Ao analisar evidências de nível metodológico mais alto, a associação entre sentar e dor lombar também foi muito fraca ou inexistente, como no caso de 3 revisões sistemáticas sobre o assunto (4, 5, 6).

Assim, com 2 artigos mostrando uma pequena associação e com 3 revisões sistemáticas com associações fracas ou inexistentes, podemos afirmar que até este momento, não existem evidências científicas suficientes de que ficar sentado seja causa da dor lombar. Então, a ideia de que sentar-se no trabalho causa dor lombar torna-se basicamente um mito. Mas como surgiu essa ideia? Aparentemente esse conceito, pelo menos em parte, surgiu de duas fontes muito citadas.

Primeiro, Alf Nachemson na década de 1960 publicou extensivamente sobre condições de pressão no disco intervertebral humano. Usando medições in vivo, mostrou que a carga total na coluna enquanto sentado aumenta em cerca de 38% em comparação com a posição de pé em adultos jovens. Suas medições foram, no entanto, realizadas apenas no disco da vértebra L3, e em menor grau, nos discos de L4 em indivíduos com discografia normal e sem achados radiológicos anormais. Além disso, essas medidas NÃO foram correlacionadas com achados de dor e o próprio Nachemson não propôs que fosse um fator de risco para dor lombar (7). Você pode não ter lido esse estudo, mas já viu a sua imagem. Se digitar no Google Imagens “pressão no disco intervertebral” a imagem do estudo será a primeira a aparecer e se repetirá em diversos links. De forma mais clara, ninguém disse que aumentar a pressão no disco seja causa de dor lombar, mas a informação viralizou-se, pelo que parece, pelo apelo da imagem.

Em segundo lugar, em 1972, em um dos primeiros grandes estudos epidemiológicos sobre trabalho e dor lombar, Magora concluiu que sentar no trabalho aumenta o risco de dor lombar. No entanto, 30 anos anos depois (!), Andersson calculou novamente a estatística desse estudo, revelando que sua conclusão não foi justificada com base nos dados fornecidos no mesmo. Ele descobriu que o odds ratio para o grupo “sentar com frequência” comparado com o grupo “sentado raramente ou nunca” mostrou que, na realidade, “sentar com frequência” comparado com “sentar raramente ou nunca” tinha significativamente MENOS dor lombar [odds ratio 0.41 (0.33 ± 0.51], ou seja, quem sentava mais tinha menos dor lombar do que quem sentava menos! Quando compararam o grupo “sentar frequentemente” com “sentado às vezes” a variação no odds ratio foi muito grande (5.31 ± 16.41), o que inviabilizou de vez às conclusões desse estudo, tornando-o um equívoco na melhor das hipóteses (8, 9).

De acordo com Hartvigsen et al (4),  a criação de um mito científico provavelmente requer várias premissas:

1 A confusão ou uma falta de conhecimento preciso combinado com um interesse em prover respostas em um curto espaço de tempo;

2 Grau razoável de argumentos lógicos, providos por estudos de qualidade duvidosa;

3 A falta de argumentos opostos com o passar do tempo, ou o viés de citação sistemática, ou seja, citar uma fonte sem pesquisar se ela está realmente certa;

Nos últimos 40 anos os profissionais de saúde propagaram, e ainda continuam propagando, o mito que sentar causa dor lombar devido a falta de conhecimento científico aprofundado sobre o tema. Desafiar um mito científico e propor um diferente ponto de vista é difícil. Em qualquer assunto com informação confusa, as revisões sistemáticas e as meta-análises ajudam a clarear as ideias. A pirâmide de evidência e as diversas variáveis devem ser consideradas antes de extrapolar um modelo para a realidade clínica (4).

A vida moderna realmente aumenta a tendência de ter um estilo de vida sedentário que envolve ficar sentado (10, 11). Mas isso não significa que ficar sentado, por si, seja causa da dor lombar. Mas como explicar aquele paciente que apresenta dor lombar após muitas horas sentado no trabalho?

Minha hipótese a respeito desse assunto é que quando consideramos o sentar sozinho, ele não é um fator de risco forte o suficiente para gerar dor lombar. Ou seja, se um indivíduo que possui um estilo de vida equilibrado – alimentação balanceada, atividade física regular, sono regulado, sem stress ou outros fatores psicossociais associados – permanecer sentado por um longo período, provavelmente não terá dor lombar significante. Mas quem, nesse mundo, ocidental-capitalista-industrializado-informatizado consegue ter um estilo de vida equilibrado? Eis, a chave da questão na minha humilde opinião…

REFERÊNCIAS

1 Hill AB. The environment and disease: association or causation? Proc R Soc Med 1965;58:295–300.

2 Gupta N, Christiansen CS, Hallmann DM, Korshoj M, Carneiro IG, Holtermann A (2015). Is Objectively Measured Sitting Time Associated With Low Back Pain? A Cross-Sectional Investigation in the NOMAD study. PLoS ONE 10(3): e0121159.

3 Suri P, Rainville J, de Schepper E, Martha J, Hartigan C, Hunter DJ. Do Physical Activities Trigger Flare-ups During an Acute Low Back Pain Episode? A Longitudinal Case-Crossover Feasibility Study. Spine (Phila Pa 1976). 2017

4 Hartvigsen J, Leboeuf-Yde C, Lings S, H. Corder EH. Is sitting-while-at-work associated with low back pain? A systematic, critical literature review. Scand J Public Health 2000 28: 230.

5 Lis AM, Black KM, Korn H, Nordin M (2007) Association between sitting and occupational LBP. Eur Spine J 16:283–298.

6 Chen SM, Liu MF, Cook J, Bass S, Lo SK. Sedentary lifestyle as a risk factor for low back pain: a systematic review. Int Arch Occup Environ Health (2009) 82:797–806.

7 Nachemson A, ElfstroÈm G. Intravital dynamic pressure measurements in lumbar discs. Scand J Rehabil Med 1970; Suppl 1: 1 – 40.

8 Magora A. Investigation of the relation between low back pain and occupation. 3. Physical requirements: sitting, standing, and weight lifting. Ind Med 1972; 41: 5 ± 9.

9 Andersson GB. Epidemiology of low back pain. Acta Orthop Scand 1998; Suppl 281: 28 – 31.

10 Egger GJ, Vogels N, Westerterp KR (2001) Estimating historical changes in physical activity levels. Med J Aust 175:635–636

11 Jans MP, Proper KI, Hildebrandt VH (2007) Sedentary behavior in Dutch workers: diferences between occupations and business sectors. Am J Prev Med 33:450–454.

3 comentários em “O mito que sentar causa dor lombar

  1. Eduardo Oliveira janeiro 31, 2018 — 9:04 am

    Excelente Bruno!

    Aponta o erro do passado, questiona o presente e abre uma discussão para o futuro breve. Estilo de vida equilibrado será o sonho de vida perseguido.

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    1. Com certeza, precisamos discutir o assunto com base nas evidências existentes e reparar os erros do passado. Seja sempre bem vindo a comentar. Grande abraço

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