Dor lombar. O diagnóstico nem sempre funciona

A área da saúde, de forma geral, atua baseada em um paradigma anatomopatológico. O indivíduo chega ao profissional de saúde, conta seu problema, e um diagnóstico específico (anatômico ou fisiológico) de uma região com disfunção é realizado após confirmação com exame de imagem. Por exemplo: um adulto com postura antálgica de inclinação lateral do tronco e dor lombar aguda poderia ser diagnosticado como portador de uma hérnia de disco no nível de L3-L4. Identificado a região com problema, faz se a intervenção no local através de técnicas específicas (terapia manual, exercícios, medicamentos ou cirurgia) para eliminar a “causa” da disfunção.

Isso é tudo muito plausível, mas infelizmente a realidade não é tão simples assim. Esse paradigma tem falhado no paciente com dor lombar, já que a mesma possui uma causa específica desconhecida de 85% a 90% dos casos, e esses são números que não podemos ignorar. É pouco provável que a dor de pessoas com as características citadas acima seja exclusivamente pela hérnia de disco.

As anormalidades anatômicas identificadas nos indivíduos com dor lombar são comuns em pessoas sem dor, ou seja, pessoas sem dor lombar podem apresentar hérnia de disco! Uma afronta direta ao paradigma patofisiológico. A neurociência ajuda a explicar esse fenômeno: muitos indivíduos com síndromes de dor crônica podem ter alterações plásticas no cérebro (hiperatividade neuronal, mudanças em excitabilidade da membrana e expressão de novos genes) que perpetuam a percepção da dor mesmo na ausência de lesão tecidual. Como resultado, indivíduos com dor lombar apresentam sintomas com pouca relação com as alterações da coluna.

Achar uma causa para dor lombar é frequentemente difícil ou impossível, e evidências nos estudos de dor crônica sugerem que transtornos de humor, fatores financeiros, cognitivos e sociais podem determinar quem desenvolve dor lombar e quem fica debilitado pela mesma. Assim, a dor lombar na atenção primária tem sido caracterizada como “uma doença em busca de uma doença”, análoga a outras condições sintomáticas mal explicadas, como a fibromialgia, síndrome do intestino irritável ou síndrome da fadiga crônica.

Baseei esse texto em um artigo de 2002, e 16 anos depois, apesar de mais evidências reafirmando essas informações, não mudou muita coisa. É necessário, com urgência, implementar as evidências para direcionar o tratamento através de avaliação mais criteriosa dos indivíduos com dor lombar, para evitar diagnósticos falhos e gastos desnecessários pro sistema público de saúde e para o paciente em âmbito particular.

Referência: Deyo RA. Diagnostic Evaluation of LBP. Reaching a Specific Diagnosis Is Often Impossible. Arch Intern Med. 2002 Jul 8;162(13):1444-7; discussion 1447-8.

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